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Quando fazer o básico fica difícil

  • Foto do escritor: Primus Psicologia
    Primus Psicologia
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

Imagine o seguinte cenário: é sábado, e Lucas acorda sem despertador, mas não porque descansou bem. Abre os olhos, pega o celular e passa alguns minutos, que rapidamente viram quase uma hora, rolando sem prestar muita atenção no que vê. Levanta com a sensação de que já começou o dia atrasado, mesmo sem ter um horário fixo para cumprir.


Ele pensa em tomar um banho, preparar algo simples para comer e responder algumas mensagens que deixou para depois. Nada muito complexo. Ainda assim, volta para a cama só mais um pouco e passa mais um pouco sobre o feed do Instagram. Quando percebe, já é início da tarde.


Ao longo do dia, pequenas tarefas vão se acumulando. Uma louça na pia, uma roupa que poderia ter sido lavada, uma mensagem simples que ficou sem resposta. Lucas até pensa em começar, mas sente um peso difícil de explicar, como se qualquer uma dessas coisas exigisse mais energia do que ele tem. Então ele adia mais uma vez.


No fim do dia, a sensação que fica é de frustração. Como se tivesse passado o dia inteiro ocupado sem de fato ter feito o que queria. E com isso, um pensamento começa a aparecer com mais frequência: “eu não estou conseguindo nem fazer o básico.”


O exemplo do Lucas ajuda a mostrar algo que costuma passar despercebido, mas que tem um impacto direto na forma como uma pessoa se enxerga: a sensação de não dar conta vai se construindo, muitas vezes, a partir de pequenas ações que não acontecem no dia a dia.


Não estamos falando aqui de grandes objetivos ou mudanças radicais. No caso dele, são tarefas simples, quase automáticas em outros momentos da vida. Ainda assim, quando elas começam a não acontecer, não é só a rotina que fica desorganizada. Aos poucos, a forma como ele percebe a própria capacidade também vai sendo afetada.


Isso porque existe uma relação muito próxima entre o que fazemos e o que acreditamos sobre nós mesmos. Quando uma pessoa consegue iniciar e concluir pequenas tarefas, ela acumula evidências de que é capaz de agir, de sair da inércia, de interferir na própria rotina. Mas quando o oposto acontece com frequência, o que se acumula é a dúvida se esse movimento é possível.


E essa dúvida costuma aparecer em forma de pensamento: “eu não consigo”, “eu estou travado”, “tem algo errado comigo”. Com o tempo, isso deixa de ser só um pensamento pontual e passa a funcionar quase como uma lente pela qual a pessoa enxerga a si mesma. E é aí que a motivação diminui. 


E aqui existe um ponto importante, que muitas vezes é entendido de forma invertida: a ideia de que primeiro precisamos nos sentir motivados para então agir. Na prática, o caminho costuma ser o contrário.


A motivação não surge necessariamente antes da ação. Ela tende a aparecer depois, como consequência de pequenas experiências em que a pessoa percebe que conseguiu fazer algo, mesmo que mínimo. E é esse acúmulo de experiências que vai reconstruindo, aos poucos, a sensação de capacidade.


Isso não significa transformar o dia em uma lista rígida de tarefas ou entrar em uma lógica de produtividade a qualquer custo. Pelo contrário. Em momentos como o do Lucas, pode ser mais útil reduzir o tamanho das ações ao invés de aumentá-las.


Às vezes, o ponto de partida não é “organizar a casa”, mas lavar um único copo. Não é “responder todas as mensagens”, mas abrir uma conversa e escrever uma frase. Pode parecer pouco, mas aqui o ponto é o efeito que essa tarefa produz. Quem escreve a frase está muito mais próximo de responder uma mensagem do que quem está pensando em fazer isso.


Cada pequena ação concluída funciona como um sinal de que algum movimento é possível. E quando esse movimento se repete, mesmo que de forma irregular no início, ele começa a enfraquecer a ideia de que a pessoa está completamente travada.


Também vale um outro cuidado importante: nem sempre o tempo em que não estamos fazendo essas tarefas é, de fato, descanso. Ficar horas no celular, por exemplo, pode dar uma sensação momentânea de alívio, mas nem sempre cumpre a função de recuperar energia. Em alguns casos, isso mantém a pessoa em um estado de suspensão, nem descansando de verdade, nem se engajando com o que precisa ser feito.


E mesmo que esses cuidados não resolvam a rotina ou o peso que o Lucas sente de uma vez, pode começar a alterar algo mais sutil, mas que serve de base para mudanças mais profundas: a forma como ele se percebe diante das próprias ações.

No fim das contas, a sensação de estar “parado” nem sempre significa incapacidade. Em muitos casos, ela está mais relacionada a uma desconexão com a própria capacidade de agir. E essa conexão pode voltar com pequenas evidências repetidas de que, mesmo com dificuldade, ainda é possível se movimentar.

 
 
 

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