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Inteligência artificial e saúde mental

  • Foto do escritor: Primus Psicologia
    Primus Psicologia
  • 9 de jan.
  • 3 min de leitura


Não é novidade para ninguém que a inteligência artificial tem tomado cada vez mais espaço no cotidiano das pessoas. Muito disso se deve ao quão eficientes essas ferramentas podem ser, ajudando a resolver problemas cada vez mais específicos. Tem dúvida sobre como tirar uma mancha de uma camisa? Quer dicas sobre como organizar suas finanças? Pergunte e terá o que parece ser a resposta certa para todas as perguntas que tiver.


Claro que não ia demorar até alguém começar a falar sobre a própria vida lá. Afinal, as respostas de algumas plataformas mais avançadas, como o Chat GPT, fazem parecer que existe de fato alguém falando com você. E melhor, “alguém” super compreensivo e paciente para lidar com cada pergunta que você tiver, sem julgamentos.


Com isso, dúvidas sobre escolhas na vida profissional, problemas da vida amorosa e exposições sobre emoções profundas começaram a ser contadas ali. É quase como um diário 24 horas disponível que emula muito bem uma empatia de dar inveja em muita gente e oferece respostas diretas ao que você está questionando. Tudo isso fez um pensamento ficar cada vez mais comum para quem recorre à IA: “achei meu terapeuta”.


Mas não. O processo de psicoterapia é um processo acima de tudo, humano. Isso significa que a empatia, por exemplo, não é emulada. Teste dizer qualquer coisa que você fez nesta semana e a IA vai te responder como se fosse a maior vitória da sua vida, e não porque ele “sente isso”. E sim porque existe uma programação complexa para que ele te responda o que você quer ouvir. Mesmo que você dê o comando mais bem escrito que você puder criar. E não existe uma régua para que você perceba quando vai começar a reforçar padrões nocivos de pensamentos e comportamentos.


Enquanto o psicoterapeuta estuda e é treinado para ouvir e validar o que o paciente diz, entende também que muitas vezes o caminho mais funcional e necessário não é o mesmo que o ele quer ouvir. Ele entende através da sua formação a hora de entrar em um conflito de ideias durante uma sessão, e não porque recebeu o comando “eu quero que você conduza esse processo de forma conflituosa”, o que pode tornar o diálogo com a IA tendencioso para esse lado, independente se é o melhor caminho ou não. 


O psicoterapeuta estimula o paciente a lidar com as situações difíceis fora da sessão, sem uma muleta 24h por dia, como a ferramenta de IA fica disponível , não dando espaço para momentos de você pensar por si quando estiver angustiado. Sem contar no sigilo de tudo o que é dito em sessão, que é garantido pelo conselho de psicologia, enquanto o que você compartilha no chat GPT pode ser utilizado pela OpenAI conforme eles quiserem, como disse o próprio CEO, em entrevista recente.


E deixo aqui o que considero o principal risco: a tecnologia tende a ocupar os espaços onde as relações humanas não ocupam, deixando cada vez mais a sensação das pessoas estarem sozinhas. E isso não se limita a terapia. Quando compartilhamos nossas emoções mais intimas com outras pessoas, criamos laços e fortalecemos relações. Dá aquela sensação de “me sinto mais próximo de você, agora que compartilhamos isso”. O uso desenfreado de IA coloca em risco a vulnerabilidade humana, o que tende a deixar as pessoas se sentindo cada vez mais solitárias, com a falsa sensação de serem autossuficientes. Nenhuma tecnologia substitui um sincero “eu te entendo” de alguém te olhando olho no olho.


E voltando especificamente ao assunto psicoterapia, a intenção deste texto não é culpabilizar quem usa IA com essa finalidade. A oferta de sessões pelo SUS é extremamente escassa, enquanto os serviços particulares de psicologia ficam inacessíveis à maior parte da população, com a inflação de itens essenciais deixando o poder de compra do brasileiro muito limitado. 


Mas é exatamente por isso que precisamos cobrar que o sistema público tenha uma oferta maior de profissionais. E se você tem alguma condição, mesmo que limitada, saiba que muitos profissionais separam vagas para atendimentos com valor reduzido. E um recado para quem não tem essa limitação financeira, mas opta pela IA por achar que “é a mesma coisa”: a máquina não supre o que te torna humano. Assista ao filme “Her” (2013).


 
 
 

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