Qual o papel da terapia individual em um mundo desigual?
- Primus Psicologia
- 9 de jan.
- 3 min de leitura

Imagine o seguinte cenário: Renata acorda 6h da manhã para se arrumar para o trabalho, se desloca por cerca de uma hora na ida, passa o dia todo em uma sapataria onde trabalha, volta nesse mesmo tempo de deslocamento e chega em casa com o céu escurecendo. Lá, precisa preparar algo para comer, cuidar da casa e deixar algumas coisas preparadas para o dia seguinte, como o almoço. Ela sente que piscou os olhos, e o relógio já marcava 21h.
Eis que Renata resolve desabafar com uma amiga sobre não estar dando conta dessa rotina, ficando cansada e ansiosa por não ter tempo para se cuidar. Disso, ouve a resposta: “você precisa se organizar melhor”, o que faz com que ela sinta uma angústia que não sabe explicar. Mas pensa “eu sou muito desorganizada, a culpa disso tudo é minha.”
Essa pequena história ajuda a ilustrar como que um problema político e coletivo pode ser facilmente absorvido por uma pessoa como se ela fosse totalmente responsável por ele, e ficando com aquela sensação de inadequação, de “todo mundo consegue, menos eu.” E se a Renata busca fazer terapia individual, até o terapeuta pode cair nessa armadilha. Até porque, o foco ali é o indivíduo. E como vamos dar conta de um problema coletivo, trazendo soluções individuais? Vamos destrinchar essas questões.
Quando eu falo sobre “problema coletivo” nessa história que contei, digo sobre como que a falta de oportunidades de emprego faz com que uma pessoa tenha que trabalhar longe de casa, em uma jornada longa a ponto de não ter tempo suficiente para cuidar de si. Passar 44 horas semanais no trabalho ignora que precisamos de um tempo mínimo de sono, tem casa para cuidar, alimentação, exercício físico, e todo aquele pacote que reforçamos tanto sobre autocuidado.
E quando essa pessoa chega em uma sessão de terapia, antes de qualquer coisa ser dita, ela já pode entender que ela não consegue. Não porque deveria ter uma jornada de trabalho menor, e sim porque ela não se esforça o suficiente. Mas objetivamente falta tempo. Ainda assim, com seus devidos cuidados, a terapia individual tem um lugar importantíssimo no meio disso tudo. E é papel do psicólogo entender que uma pessoa tem a dimensão social como um dos principais fatores que a afetam.
Primeiro, porque dá voz para uma pessoa se ouvir e perceber como ela observa e lida com todas essas questões. É um espaço para a expressão do seu lado mais pessoal, aquilo que só ela sente. Segundo, que com os devidos cuidados que já citei sobre as devidas responsabilidades, é possível buscar formas individuais de amenizar os problemas da Renata.
Podemos conversar sobre cuidados importantes com o sono, dentro do que for possível para ela. Mostrar a relação entre o que ela pensa, sente e faz, e como esse pode ser um exercício que dá bastante autonomia. E quem sabe, talvez a gente consiga encaixar um exercício físico em casa, mais rápido, já que pode ser difícil frequentar uma academia ou uma aula de esporte coletivo. Dá para tentarmos ir além, e avaliarmos se o tempo que ela consegue descansar, ela realmente descansa, ou acaba “presa” no celular.
Tudo isso não vai fazer a Renata trabalhar menos e ter mais tempo para si. Como eu já mencionei, o problema vai além da Renata enquanto pessoa. Mas essas são formas de não só amenizar o problema, como também dar alguma qualidade de vida para uma pessoa com essas questões. Até porque, enquanto isso, é papel do terapeuta mostrar a ela que em um problema coletivo, a solução é política e coletiva. Então mais do que não reforçar pensamentos como “não gosto de política, não resolve nada.”, o profissional deve estimular a Renata a entender e lutar por causas que poderiam melhorar sua qualidade de vida, junto a pessoas que estão lutando pelos mesmos direitos.
Então a terapia individual tem espaço? Não só espaço, como uma responsabilidade imensa para amenizar o sofrimento de cada um, e também na conscientização de quem está na ali na sessão. E por mais que o exemplo aqui tenha sido jornada de trabalho cansativa, poderíamos estar falando sobre direito à saúde, educação, segurança, luta por minorias, dentre outros.
No fim das contas, cuidar da saúde mental de alguém não é apenas ajudá-la a lidar melhor com a própria rotina. É também ajudá-la a perceber que não está sozinha, nem errada por se sentir exausta. Em uma sociedade que individualiza os problemas e culpa o sujeito pelas falhas de um sistema desigual, o papel do terapeuta é, também, devolver a ele a consciência de que sentir-se sobrecarregado pode ser, sim, um sinal de sanidade. Porque adoecer em um mundo adoecido não é fraqueza: é um chamado à transformação.




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