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O peso de decidir

  • Foto do escritor: Primus Psicologia
    Primus Psicologia
  • 30 de abr.
  • 3 min de leitura

Na série “Fleabag”, a personagem tem um momento emocionante onde fala sobre o cansaço de decidir.


“Quero que alguém me diga em que acreditar, em quem votar e quem amar, e como dizer isso a essas pessoas. Acho que só quero que alguém me diga como viver minha vida, porque até agora acho que tenho feito tudo errado”


Quando vi essa cena pela primeira vez eu me surpreendi ao imaginar o alívio que eu sentiria ao viver uma vida assim. Por que será? O que será que pode vir junto da falta de autonomia?


Talvez a libertação do peso da responsabilização. De ser quem decide, quem faz, quem erra, quem magoa, quem decepciona, ou quem fracassa.


O que não se fala sobre decisões difíceis e que elas precisam ser bancadas. Talvez a dificuldade não seja tomar a decisão, mas sustentar a angústia de não saber onde ela vai levar. E talvez por isso a gente romantize tanto a ideia de alguém assumir o volante por nós. Não porque queremos, de fato, abrir mão da nossa vida, mas porque estamos cansados de carregar o peso de que tudo depende, em alguma medida, das nossas escolhas.


Acontece que existe um outro lado dessa fantasia. Porque quando alguém decide por você, também decide o que você perde. Decide os caminhos e possibilidades que você não vai explorar, as suas versões que não vão existir. A ausência de responsabilidade pode até aliviar, mas ela também esvazia o senso de autoria.

E sem autoria, o que sobra da gente?


Então talvez o ponto não seja desejar menos decisões, mas construir mais recursos internos para lidar com o que vem depois delas, já que nenhuma escolha vem com garantia, todas elas são basicamente passos no escuro, ou pelo menos na penumbra. E, no fim, viver é se comprometer com caminhos imperfeitos, enquanto a dúvida continua existindo.


Sustentar a angústia é o preço de estar vivendo de um jeito que é, de fato, seu. Então existe ainda um outro lado dessa fantasia: a ideia de que existe um jeito certo de viver que, se seguido, elimina o desconforto. Como se o problema fosse a falta de orientação e da certeza de um caminho “certo” e não o fato de que talvez não exista “o” caminho certo.


E isso sem nem falar que quando alguém diz o que fazer, a angústia não desaparece, ela só muda de lugar e pode virar ressentimento, dependência, sensação de estar desconectado de si, porque no final das contas, nós estaríamos vivendo uma vida que não foi escolhida baseada no que faz sentido pra nós, e sim pro outro.


Existem muitas situações em que esse pode ser o caso. Escolher uma faculdade baseado no curso que oferece mais prestígio social, permanecer em um emprego que causa infelicidade porque a família diz que é o certo a se fazer, se conformar em uma relação amorosa seguindo o ritmo, os planos e os objetivos do outro sem valorizar os seus… A lista é longa. Mas se sentir um espectador da própria história também é cansativo. Talvez o passo mais importante não seja não ter dúvidas, mas tolerá-las.


A responsabilidade pode aparecer muito como peso ou cobrança, mas a gente pode ressignificar para autoria e agência pela própria história. No fundo, talvez o desejo não seja que alguém decida por nós. Talvez seja só o desejo de não se sentir tão sozinho diante das próprias decisões.


Por isso, ao invés de buscar alguém que diga exatamente o que fazer, talvez o caminho seja outro: construir vínculos, referências, espaços de troca onde seja possível pensar junto, de forma a se aproximar de si, não se afastar.

Porque viver a própria vida não significa fazer tudo sozinho, mas também não significa desaparecer dentro das escolhas dos outros.

 
 
 

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